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Como a linguagem interfere no pensamento: o curioso caso do professor de Direito Constitucional

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Eu tinha um professor de Direito Constitucional que quase nunca dava aula. A verdade é que ele estava sempre viajando. E sempre ocupado. As aulas (que ele ia) eram basicamente ouvir sobre viagens. Nunca reclamei disso, pois dizem que aluno que não quer saber da vida do professor nem é aluno, né?

Mas, há um detalhe sobre esse professor que eu nunca esquecerei: ele sempre confundia o idioma que falava. A justificativa vinha em seguida com a frase: “sabe como é, viajo muito e estou acostumado a falar várias línguas”.

A partir disso, eu me perguntava: em qual idioma ele pensa oficialmente? Como é a cabeça de um ser humano poliglota?

Então, busquei a resposta nos livros de filosofia e a mais coerente que encontrei foi do filósofo Wittgenstein que, em resumo, disse: os limites do mundo são os limites da minha linguagem.

Por um momento, fiquei reflexiva e imaginei que meu mundo deveria ser minúsculo, afinal, meu inglês é péssimo. Contudo, lembrei da imensidão de palavras e recursos da língua portuguesa que ainda não sei. Ah, lembrei também que eu nunca entendi o significado da palavra “anastomose” e que, talvez, isso faça diferença no meu mundo.

O fato é que essa filosofia defende que nós somos o que pensamos (René Descartes que o diga) e o nosso pensamento é formado pela língua que falamos. Inclusive, a hipótese de Sapir-Whorf já alertava que o homem aprende
primeiro a linguagem e depois a pensar.

Aliás, nessa teoria, a fala foi outro aspecto que se desenvolveu junto com o pensamento. Logo, se você quer ter uma oratória excelente, tenha uma linguagem excelente. E nesse caso, domine a língua que você fala. Em outras palavras, estude português.

Assim, chego à conclusão de que a linguagem interfere no pensamento da seguinte forma: quanto mais você estuda sobre determinada língua, maior é o seu repertório para pensar, criar conexões e se expressar melhor. Acrescento também que, segundo uma fala do filme “A Chegada”, do diretor Denis Villeneuve: “A língua é o alicerce da civilização. É a cola que une as pessoas. É
a primeira arma sacada em um conflito.

Diante disso, é possível observar a importância do estudo da língua. Todavia, o que ainda não consegui deduzir é se aquele professor pensava em português, inglês ou chinês. É, tem certas coisas que eu nunca saberei dizer.

Autor (a): Luciana Petri

REFERÊNCIAS

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. Edusp, 1994. Disponível no Google Books.
SAMPAIO, Rebecca Demicheli. LINGUAGEM, COGNIÇÃO E CULTURA: A HIPÓTESE DE SAPIR-WHORF. Cadernos do IL, n. 56, p. 229-240, 2018.

Disponível em: https://www.seer.ufrgs.br/cadernosdoil/article/view/83356
Link do filme “A Chegada”: https://www.imdb.com/title/tt2543164/