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O quanto devo ser objetivo na linguagem?

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Por Gabriela Magnani

A forma como utilizamos as palavras no meio de uma narrativa define quem prestará atenção nela. Quando eu uso palavras em inglês no meio de uma negociação, por exemplo, me afasto de quem não consegue se conectar com aquele significado e me aproximo de quem já tem esse costume. Para quem também usa termos em inglês (os estrangeirismos, considerados vícios de linguagem), podem ser considerados recursos de aproximação. Ou seja: por mais que sejam distrativos na maior parte das vezes, também podem dar um sentimento de pertencimento para quem faz parte do grupo que tem aquele hábito linguístico. A linguagem é um aspecto cultural.

O mesmo acontece com as gírias. Usar “tipo” com muita frequência e sem pensar no contexto acaba atrapalhando o caminho da mensagem até o receptor. Mas, se o meu público se conecta com um discurso mais informal, usar “tipo” pode gerar conexão e dar tom de conversa à minha fala. Mais uma vez, um recurso de aproximação.

 

O QUANTO DEVO EXPLICAR?

Depende do contexto. Primeiro, é preciso entender que a linguagem é toda feita de recursos. Recursos para validar (como o “né?”), para argumentar, para reformular. Qualquer palavra que escolho me afasta de um estilo de plateia e me aproxima de outro. Lembre-se de que algumas palavras podem ser compreendidas de maneiras diferentes por profissionais de áreas distintas. A palavra “processo” para um administrador pode significar uma série de atividades que acontecem periodicamente, com insumos e saídas. Para um advogado, uma parte necessária ao exercício do poder. Para um artista, a árdua e deliciosa jornada de chegar até uma obra. Se eu falo apenas “processo”, eu deixo a minha fala aberta a várias interpretações.

Para que não fique tão abstrato, separei alguns momentos em que sugiro, com base na minha experiência como comunicadora, o quanto vale aprofundar e ilustrar o seu argumento a depender do contexto. O ambiente, o objetivo da comunicação e os receptores mudam completamente os recursos utilizados na linguagem.

 

QUANDO POSSO SER MAIS OBJETIVO?

Um roteiro objetivo não quer dizer um roteiro reduzido. A objetividade está atrelada com a clareza que o comunicador tem ao mostrar suas ideias e com a maneira como deixa explícito o que quer dizer, tópico a tópico. Porém, quando temos menos tempo para o desenvolvimento das palavras, precisamos obrigatoriamente trabalhar com a nossa objetividade. Chegar direto ao ponto. Não há tanto espaço para a ilustração/exemplificação em excesso.

Você pode trabalhar a sua assertividade em situações nas quais você tenha poucos minutos para desenvolver uma linha de raciocínio ou lugares em que espera-se uma resposta mais direta, como em uma reunião de repasse ou uma entrevista para um repórter. Quando temos pouco tempo, corremos o risco de sermos superficiais. Por isso, se analisarmos bem quais as limitações daquele contexto, notaremos que vale repriorizar os conteúdos e, em alguns desses momentos, optar por cortar tópicos que não sejam tão necessários. Se você tem cinco ou dez minutos para uma curta apresentação, é complicado explicar qualquer que seja o assunto com profundidade. Nesses casos, compreenda muito bem qual é a ideia central e atenha-se apenas àquela mensagem.

Principais dificuldades: ao tentar ser direto, acabar por ser superficial; maior dificuldade de criar conexão com o público.

Principais ganhos: mais fácil de gerar curiosidade na plateia até o fim da narrativa; mais fácil de lembrar a sequência dos tópicos.

Se você tem dificuldade em ser mais objetivo no seu argumento: busque sintetizar suas ideias em momentos oportunos como em reuniões, debates informais ou ligações. Ao desenvolver a habilidade de trazer argumentos fortes e, ao mesmo tempo, direcionados à ideia central, você também trabalha o raciocínio rápido e a conexão entre conteúdos.

 

QUANDO POSSO APROFUNDAR MAIS?

Você pode entregar mais detalhes em momentos onde precisa que o público memorize. Alguns exemplos são as apresentações mais longas ou mediações de cursos. Nesses casos, a riqueza de detalhes faz com que você crie várias camadas de conhecimento e argumente por diversas perspectivas. Dessa maneira, você marca a sua personalidade como comunicador (tema do próximo texto!) e tem mais chances de se aproximar do receptor da mensagem.

Principais dificuldades: pode ficar cansativo se não for um recurso bem utilizado; é mais difícil lembrar da sequência.

Principais ganhos: mais facilidade na conexão e convencimento da plateia; mais abertura ao improviso.

Se você tem dificuldade em aprofundar o seu argumento: busque exercícios de roteirização e escrita criativa. Quando temos dificuldade de detalhar e trazer riqueza/profundidade aos nossos argumentos, as atividades de destrave são excelentes. Quando temos a liberdade e o tempo para ilustrar com mais delicadeza as nossas histórias, mais engajamos e envolvemos quem escuta.

 

ENTENDA O PESO DE CADA CONTEXTO

Um bom comunicador consegue transitar bem entre as duas habilidades – a objetividade e a ilustração. As duas qualidades são essenciais para o domínio de qualquer argumento. O contexto por si só pede que o orador seja mais explícito quanto às suas ideias em determinado momento ou que precise formular várias perspectivas, trabalhando com a imaginação e possíveis interpretações do seu público. Quanto mais você toma a liberdade de testar esses estilos de roteiros, mais você compreende os momentos estratégicos de cada um. E esse é um aprendizado que reflete também no improviso.