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Erros de argumentação e jogos de xadrez: o que tem uma coisa com a outra?

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Por Gabriela Magnani

Jogar xadrez é viciante. A cada partida, você aumenta o seu repertório de estratégias. Com a prática e jogando com diferentes adversários, você consegue desenvolver o seu estilo. Eu, por exemplo, me preocupo bastante com a abertura, quando posiciono as peças de forma que fiquem protegidas. Consegue relacionar à introdução e contextualização em uma apresentação?

No tabuleiro, boa parte do jogo depende desses primeiros movimentos. Magnun Carlsen, um mestre de xadrez da Noruega, consegue antecipar de 15 a 20 jogadas. O quão estratégico e rápido o pensamento de um jogador de xadrez tem que ser? Mas, em qualquer que seja a habilidade, é normal ir se apaixonando pelo tema e querendo saber cada vez mais. Como posso recuperar uma partida que parece perdida? Como posso blefar para que o adversário não perceba que deixei minha rainha dando sopa? Tenho que fazer o roque mesmo?

Procurando sobre como ganhar partidas de xadrez, você encontrará as movimentações chamadas de traps – ou, em bom português, armadilhas. Se bem utilizadas, elas podem te dar uma boa vantagem ou até te fazer chegar ao xeque-mate. Decorar uns movimentos aqui, ali e garantir a vitória. Principalmente contra um adversário que não tem tanta experiência no xadrez. Parece bom demais pra ser verdade, não?

 

QUAL É O PROBLEMA DE USAR AS ARMADILHAS?

As armadilhas não são exatamente contra as regras. As suas peças respeitam as devidas movimentações. O tempo no cronômetro vale o mesmo. Você dá oportunidade ao oponente. Uma boa armadilha pode impressionar o seu adversário e o público que estiver ao redor do tabuleiro. Então, quais são os problemas? O que está por trás?

> Algumas armadilhas te deixam em uma péssima posição, caso não sejam compradas pelo adversário.
> As vitórias têm sabores diferentes. Por que você quer ganhar? O seu objetivo é ganhar o jogo por ter memorizado algumas posições que fazem seu adversário cair em um blefe ou por ter um bom raciocínio lógico, concentração e dedicação?
> Quando o adversário perceber a sua armadilha, entenderá sua estratégia de jogo e será mais fácil te vencer.

Sim, as armadilhas podem te ajudar a ganhar. Mas qual é a graça de ganhar de alguém que está iniciando no xadrez e ainda não passou pelas traps? É justo com o oponente que não buscou por técnicas fáceis para ganhar? Vale apostar em jogadas rápidas que podem prejudicar todo o andar do jogo, te deixando em uma situação complicada de recuperar, mas não no desenvolvimento de um jogo consistente?

 

QUAL É A RELAÇÃO ENTRE AS ARMADILHAS E OS ERROS ARGUMENTATIVOS?

Você certamente já ouviu o termo “falácias” em algum lugar. Em alguns contextos, usamos o adjetivo “falacioso” para aquele que mente, que age de má-fé. Mas as falácias não se resumem a uma mentira. São argumentos fracos ou tirados de contexto, fantasiados de verdade. Às vezes, propositais. Em outras, por falta de informação. Ingenuidade.

Existem dezenas. Um exemplo é o apelo emocional, quando troco uma linha lógica por uma abordagem que depende exclusivamente da emoção com o objetivo de sensibilizar o público – choro, sem construção lógica, por exemplo. A ad hominem, quando ataco o emissor, e não a sua ideia – reclamar do mensageiro e não da mensagem. São apelos que podem convencer o público – podem te fazer ganhar a partida -, mas não pelos motivos certos. As falácias são como as traps do xadrez. Jogadas rápidas para chegar à vitória, mas que não são firmes. Que só funcionam com oponentes despreparados ou iniciantes. E que são fáceis de desmascarar.

Qual é o seu objetivo em um debate, uma discussão? Ganhar, apenas? Ou chegar a alguma solução que olhe por ambas perspectivas? Você está realmente disposto a entender, ouvir e compreender o outro lado? Por mais absurdo que seja o posicionamento, lembre que o seu oponente tem muito a lhe ensinar. Ele lhe ensinará sobre sua visão de mundo. A visão de alguém que teve referências diferentes das suas. Que buscou por outros autores. Que teve outra criação. Que tem outras prioridades e preocupações.

 

ENTENDO O OUTRO LADO, MAS QUERO CONVENCÊ-LO.

Não é um problema querer convencer. Nós vendemos as nossas ideias a todo tempo. Em uma negociação, queremos convencer o possível cliente de que o nosso produto pode ajudá-lo porque sabemos a qualidade do que vendemos. Em um debate, queremos mostrar um lado diferente sobre o mesmo assunto (e incluir as nossas vivências) porque sabemos que podemos agregar à discussão. Convencer não é ruim. Mas, convencer é diferente de manipular.

Manipular outras visões não é o caminho por diversos motivos. Começando pela base: não sabemos que estamos certos. Nunca temos certeza. A própria ciência se refuta a cada dia. Para ser uma personalidade capaz de argumentar e digna de confiança – o que é necessário para qualquer comunicação eficiente -, é importante estar aberto ao erro. À possibilidade de pensar de uma forma em um dia e, com mais informações, mudar seu posicionamento. Crescer, estudar e debater as “verdades absolutas” dentro de nós, nos faz comunicadores melhores. Estar aberto a outras opiniões e a escutar outras perspectivas nos faz crescer.

Para convencer, o seu argumento precisa ser forte. Bem embasado. Consistente. Você precisa saber de onde vem essa linha de raciocínio. Entender o porquê defende esse posicionamento. Na maioria das vezes, as jogadas rápidas não convencem. Elas só fazem com que o receptor da mensagem entre na defensiva e se feche ainda mais para o seu ponto de vista.

 

O OUTRO TEM UM POSICIONAMENTO QUE VAI CONTRA OS MEUS VALORES.

Por que o outro pensa dessa forma? Ele foi ensinado, segue uma escola de pensamento diferente, é de outra geração? Recebeu outra educação, veio de uma região diferente (fatores culturais envolvidos) ou mesmo pertence a outro grupo social? O que o diferencia dele e o que você pode aprender com esse posicionamento? Para convencer, você precisa compreender como o outro pensa. O porquê pensa daquela forma. De onde tirou aquelas informações. Faça boas perguntas. Dê espaço para que o outro manifeste suas opiniões. Explique calmamente – muito domínio emocional aqui! – porque você discorda. Porque fere seus valores pessoais. O debate é um jogo emocional. Olhe para o outro como se olha um objeto de estudo. Na comunicação, a observação e paciência são fundamentais.

 

ESTOU CANSADO(A) DE TER QUE EXPLICAR DE NOVO E DE NOVO.

Ô, como te entendo! Serei sincera: se você tem que explicar de novo e de novo, seu argumento não está funcionando. Tente por outra abordagem. Voltamos ao tópico anterior: por que sua opinião não se conecta aos valores e ideais do seu adversário? Profundidade na sua linha lógica. O que te convence, não necessariamente convence o outro.

 

EM RESUMO:

Busque por um argumento forte e bem construído ao debater. Assim, você gerará discussões que proporcionem aprendizado aos participantes, não disputas. E, claro, quando for argumentar (ou jogar xadrez), não esqueça de buscar por estratégias e estar aberto ao improviso. Nos tabuleiros ou nos palcos, o seu jogo depende do outro. Não esqueça dos receptores da mensagem – o seu público. Tudo é feito para eles.